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terça-feira, 23 de setembro de 2014

Sobre o sexismo

É muito dificil... como mãe de menino, digo que essa questão do sexismo é uma luta contra a correnteza. O mundo constrói o sexismo na cabeça deles e a gente desconstrói, o mundo constrói de novo, a gente desconstrói mais uma vez. Por aqui eu tenho um menino que gosta, entre diversas outras coisas, de barbie. Eu deixo ele assistir o desenho quando ele pede, e faço roupinhas pra barbie dele que ele me pediu pra dar de presente e eu dei. Assim como dei carrinhos, massinha, boneca, dedoches e o que mais ele me pediu, quando achei que cabia. Essa barbie já foi pra escola algumas vezes. No caminho e na escola eu ouvi falarem pra ele "mas isso não é de menina?", "não acredito! Andrej brincando de barbie?", "uá, virou menina, por acaso?"... Enquanto isso eu ouvi "você não tem medo do que as pessoas vão falar pra ele?", "meu primo teve uma barbie, hoje ele é gay". Na própria família teve gente falando "você vai dar/deu uma barbie pra ele? =O Porque?!?!", "ah, dá outra coisa pra ele, barbie não". Ontem ele chegou em casa querendo brincar de corrida de carrinho. Na noite anterior ele chegou pedindo pra eu pegar a Felícia, uma boneca que ele tem, porque ele queria trocar a fralda dela. Na escola tem uma sala cheia de fantasias. Tem dias que ele gosta de se vestir de homem aranha, dias que ele bota o vestido da branca de neve. Ele é feliz brincando do que gosta, quando gosta. Eu embarco feliz em todas as brincadeiras dele. E eu não tenho a menor pretenção de estragar isso com conceitos esdrúxulos como "isso é de menino, isso é de menina", "isso pode, isso não". Eu não incentivo que ele goste de barbie, como não incentivo que ele goste de carrinho, ou se vista de determinada cor. Ele sempre foi e sempre vai ser livre pra fazer/gostar/brincar/ser o que quiser. Não tenho medo que ele se torne gay porque não vejo problema em ele ser gay, se assim ele se descobrir. É muito, muito difícil criar uma criança sem sexismo. Criar uma criança pra ser feliz e ponto. O mundo lá fora te desmente o tempo todo. Mas a gente por aqui não esmorece, segue em frente desconstruindo, desconstruindo, desconstruindo...

quinta-feira, 8 de setembro de 2011

Nascimento do Andrej - Um relato inacabado

Sinto que este relato ainda não acabou. A cada dia eu tenho mais um insight. No entanto me vem uma urgência de escrevê-lo como se colocando no papel me fosse ficar mais claro algum porquê ou como. Como se um desenho me fosse fazer visualizar algo que pode ser óbvio, mas a mim, será como um argumento que eu ainda não ouvi. Eu sinto um peso. Tenho momentos de intensa alegria, mas momentos em que parece que me perco numa profunda escuridão. Não sei se por como as coisas aconteceram, ou se pelo que aconteceu depois.
Não, eu não estou sofrendo por não ter parido, por não ter tido meu parto domiciliar ou mesmo natural, por não ter tido a vivência que meu corpo é capaz. Fico um pouco triste, sim. Mas também sinto que a jornada não foi em vão, eu sou uma pessoa diferente hoje pelo caminho que percorri na estrada da humanização. Não pretendo me afastar dele, pretendo levar essa boa nova a muitas ainda e um dia vivenciar o que sonhei pra mim e pro Andrej num novo nascimento, onde ele vai participar como meu companheiro. Talvez uma hora eu ainda vá chorar esta etapa.
Quando eu pensava na possibilidade de precisar de uma cesárea, pensava que esta seria a pior coisa que poderia acontecer. Por ora, eu estou imensamente agradecida pela minha cesárea, pois apesar dela ter me privado do parto, não me privou da maternidade, e isso, eu não fazia idéia do quanto era imenso. O parto ficou pequeno. Mas ainda assim eu me reservo o direito de chorar por ela uma hora, pois é fato que algo dentro de mim morreu, sim, naquela cirurgia.
Para quem queria um parto em casa, as coisas aconteceram totalmente ao inverso. Pra começar, eu tive uma gravidez linda, desejada, saudável. Mas sob um enorme estresse no trabalho. Sou gerente de qualidade de uma instituição de internação domiciliar e quando descobri a gravidez eu estava no meio da coordenação de um projeto grande de certificação chamado Acreditação, que é como um ISO da área da saúde. Foi um longo processo de mudanças tanto estruturais quanto cotidianas na empresa e tudo pelas minhas mãos. Ao me aproximar do oitavo mês de gestação, nos aproximávamos também de nossa primeira avaliação diagnóstica, onde todo nosso trabalho seria avaliado em 3 dias de visitas do órgão fiscalizador. Todo nosso trabalho de meses, ou seja, as nossas novas diretrizes, rotinas de trabalho, processos, protocolos precisavam estar descritos formalmente. Como coordenadora, me fugiu um pouco a noção de que meus líderes setoriais deixariam para última hora colocar tudo isso no papel e colher as devidas assinaturas de aprovação, para que eu homologasse, arquivasse e arrumasse na ordem que tinham de estar para que os avaliadores pudessem manusear, caso contrário, sem evidências, tudo que fizemos desde o começo seria em vão. Os dois últimos meses de gestação foram intensos, trabalhando sábados, domingos, até tarde, chorava muito, cansada, estressada, preocupada. Meu filho ficou em segundo plano, afinal, ele estava bem. E eu sofria muito por não estar curtindo mais minha barriga e minhas últimas semanas com ele dentro de mim. Fora isso, me tranqüilizava saber que eu lhe daria um parto digno e que tudo se encaminhava bem para isso.
Foi aí que na 34ª semana, exatamente no último dia das avaliações, eu tive muitas contrações e perda de tampão. Eram indolores, mas fui ver minha EO, a Helo, que achou meu colo muito centralizado, temeu um trabalho de parto prematuro e me colocou de molho em casa uma semana para fugir do estresse. Passou. Paralelamente ela me pediu uma ultra para nos certificarmos da posição dele. Estava difícil de sentir, ficamos com dúvidas. Na ultra, a sentença: pélvico. Começou meu desespero. Eu me desestruturei. Tanto estresse e só com isso eu fui me abalar. Pensava mil coisas ruins que eu nem conseguia verbalizar, que meu filho mexia pouco, que podia ter problemas neurológicos, que ele tinha raiva de mim, que eu causei isso a ele com meu estresse...  cheguei a ficar chateada com ele por fazer isso comigo... me abalei mesmo. Minha mãe veio me dar suporte, o que foi muito rico pois vi o quanto ela me apoiava nessa minha aventura a qual todos eram contra, menos meu marido. Ela me ajudou com as posturas, com o relaxamento, com a conversa com ele, com massagens, com som, calor e frio e eu vi que ela queria mesmo que eu tivesse o parto para o qual eu me preparei, que ela também acreditava nele...
No dia em que soube que ele estava sentado eu entrei no banho e chorei, chorei, chorei. Queria que a água levasse minha tristeza e preocupação. Eu via uma cesárea se anunciando e nada me consolava. Com a cabeça debaixo da água do chuveiro eu me senti numa caverna e vi uma mulher no meio de um lago lá no fundo da caverna. Eu ouvia latidos e uivos e logo reconheci que ela era uma Deusa chamada Hécate, que é a senhora dos portais e, portando, do nascimento. Ela me ofereceu da água do lago para beber e eu imediatamente aceitei, como se aceitando um convite para deixá-la me guiar nesse processo. Aquilo me acalmou. Mas internamente eu sabia que isso significava uma jornada. Certa vez escrevi sobre a descida ao submundo de Inanna, outra Deusa. Como mulher, já vivi essa “descida” em outras etapas da minha vida e sei como é difícil, mas no final todas retornamos como Rainhas. Para chegar ao fundo da caverna, no lugar mais profundo de nós mesmas, precisamos nos despir de nossas insígnias, de nossas máscaras, de nosso controle sobre nós mesmos, para atravessar o portal que temos que atravessar, seja qual for. E só então poder aprender a lição e voltar com o poder nas mãos. Esse poder nesse caso, era meu filho. Pra mim, foi claro que Hécate veio me convidar pra uma descida. E eu aceitei.
Mas enquanto eu trilhava meu caminho interno com meus medos e travas internas, a equipe viu algo na ultra que havia me passado batido diante da notícia dele estar sentado: a biometria dele estava atrasada. Lembro delas terem falado algo, mas eu pensei “ele é pequeno mesmo, e daí? Eu também sou. É até melhor.” Nem liguei. Mais uma semana de exercícios, acupuntura, conversas e mais uma ultra: ele ainda estava sentado. E, silenciosamente, sem crescer o quanto era esperado. Mais uma vez a equipe ficou alerta, mas não era hora, ele ainda estava bem. Eu, ainda ignorava os riscos disso. Me concentrando na parte dele estar pélvico, me enchi de força, aproveitei que minha mãe voltaria para sua cidade uns dias, programei um intensivo com meu filho e lá fomos nós sozinhos pro parque, pra praia e eu tive longas conversas com ele sobre mim, meus medos, minhas expectativas e sentimentos em relação a ele, meditei muito, respirei muito com ele, chorei muito, descobri muita coisa sobre mim e sobre ele. Os exercícios foram deixando de ser uma obrigação e foram virando o melhor momento do dia, pois era o momento em que eu sentia e vivenciava meu filho, que eu ia o conhecendo. Foi aí que magicamente eu percebi que havia parado de me preocupar com a posição dele e com a possibilidade de ele ter problemas e comecei a ver diferente: ele tinha ficado negligenciado um tempão e reivindicou a mãe do jeito dele. E conseguiu! A esta altura eu estava totalmente entregue a ele, vivendo pra ele, já fora do trabalho, sem estresse, ele era GENIAL! Que orgulho passei a sentir dele, o amor que eu tinha por ele foi tomando forma. Antes era só expectativa, possibilidade, e naquele momento já havia consistência, tamanho, formato. Nada me tirava a sensação de que não havia mais nada que o impedisse de virar e de termos nosso parto tão sonhado, eu estava confiante. No dia em que completamos 37 semanas eu tinha consulta na GO, a Fernanda, com quem eu fiz o pré-natal junto com a Helo, sempre todos se falando. Fui feliz e radiante, sabendo que ele já poderia ter virado, estava mesmo sentindo ele diferente. Na consulta, ouvi da médica que o fato dele estar pélvico não inviabilizaria meu parto natural, que tudo ia depender dele e de mim e das circunstâncias. Fiquei mais feliz ainda! Mas na hora de auscultar ele, os batimentos estavam leeentos... nem achei que fosse ele. E dali foi aumentando o ritmo e ficando rapidinho. Eu sem entender, perguntei se isso era normal. A Dra. Fernanda disse que poderia ter dado uma descompensada, que eu estava de barriga pra cima, pra evitar essa posição. Auscultamos mais algumas vezes e tudo normal. Minha pressão deitada de barriga pra cima deu 15 por 10, de lado, voltou para 10 por 6. Também verificamos isso algumas vezes e em todas minha pressão subia muito deitada de barriga pra cima. A Dra. Fernanda pediu que eu fosse fazer uma ultra naquele mesmo dia. Perguntei se eu podia almoçar antes e ela disse que sim, mas que ligasse pra ela da emergência da Perinatal para dar notícias. Indo pra casa almoçar, eu fiz minha mãe errar o caminho de casa e ir em direção à Perinatal que é bem perto da minha casa, então ouvimos o acaso e fomos direto pra lá. Fomos atendidos de pronto, o que foi estranho. E na ultra, a médica viu uma centralização severa, que é o que acontece quando seus pequeninos órgãos recebem pouco oxigênio da placenta pelo cordão, fazendo a circulação prevalecer nos órgãos mais importantes, que são o cérebro e o coração. Ele não havia mais crescido, meu líquido amniótico estava diminuído... não havia outra escolha senão interromper a gestação. O Andrej precisava nascer.
A notícia me acertou como um golpe no estômago. Eu ainda não havia me atentado para a seriedade da restrição de crescimento, sua ligação com centralização ou com sofrimento fetal, mas a verdade é que meu filho estava em sofrimento e tinha que sair da minha barriga dali pouco tempo, pra onde pudessem fazer algo por ele.
A partir daí são flashes que eu tenho de memória até a hora em que ele foi colocado no meu peito. Eu fui pra casa, fiz nossas malas correndo sem conseguir pensar nem que dia era nem o que eu usaria, nem se as roupas dele caberiam, já que era um bebê com peso estimado de menos de 2kg. Me internei menos de 2h depois. A Helo veio pra minha casa e me acompanhou até lá com meu marido e minha mãe. O suporte emocional dela foi muito importante tanto para mim quanto para meu marido, pois a gente não só estava tendo nosso sonho do parto interrompido, como nosso bebê corria perigo. Lá encontrei a Dra. Fernanda que já havia feito minha pré-internaçao pra agilizar e já estava com toda sua equipe pronta. Fui internada, fui prum quarto, recebi a anestesista, assinei o consentimento, tiveram de chamar dois supervisores prediais com alicates pra tentar tirar um piercing de septo nasal que eu tenho e não saía (que foi uma parte até engraçada), eu coloquei aquele avental de bunda de fora, deitei numa maca e fui levada pro centro cirúrgico, onde meu marido foi trocar de roupa e eu fiquei só, com meus pensamentos, enquanto um técnico de enfermagem tentava colher umas informações de mim, me colocava uma pulseira e me mostrava meu nome na pulseira do meu filho. Eu olhava aquilo meio fora de órbita. Eu estava morrendo de medo, tremia, estava em pânico. A Helo chegou e afugentou o cara e então começou a me dizer coisas doces e que fizeram toda diferença. Ela me disse que os olhos dela seriam minha âncora e me transmitiriam segurança e que eu olhasse sempre pra ela quando precisasse dessa segurança. A equipe rapidamente chegou e eu fui pra sala de cirurgia na maca. Lá me prepararam e a Helo ia me dizendo o que seria feito, a equipe se apresentou a mim. Dra. Fernanda brigou para que o ar e a luz fossem diminuídos e um papo de viagem que começou a surgir entre a equipe foi logo cortado silenciosamente, provavelmente pela Dra. Fernanda. Chegava a hora da anestesia. Essa foi uma hora particularmente difícil pra mim, pois era minha hora de me entregar. Eu resisti. Algumas insígnias a esta altura já haviam sido arrancadas de mim: meu sonho de parto, meu trabalho de parto, a segurança do meu filho, minhas roupas, meus piercings. Agora era hora de eu me entregar ao inevitável. A anestesia que dão para que você não sinta a agulha que entra na sua coluna, eu não a sentia fazer efeito, sentia as agulhadas nos ossos, chorava muito. Foi sofrido. Assim que pegou, me anestesiaram e eu fiquei falando que tava sentindo tudo, tava sentindo mexerem em mim, sentia minhas pernas, achava que tava mexendo o pé. Era medo. Uma hora eu senti o cheiro do bisturi queimando minha carne e relaxei. Então eu voltei minha atenção para a Helo novamente, tentava respirar profundamente, mas tinha um peso imenso no peito. E de repente abaixaram a cortina e ele surgiu, roxo, imóvel, com as perninhas esticadas diante do rosto. Ele foi colocado por frações de segundo perto do meu rosto e novamente levado para reanimação. O tempo parece que parou ali. Eu repetia “chora pra mim, meu filho! Quero ouvir ele chorar! Chora pra mim, Andrej!” Pedi ao meu marido que fosse com ele pois ele estava com pessoas que ele não conhecia, mas meu marido não conseguiu. Então a Helo se ofereceu para ir e eu pedi que fosse. De lá ela dizia que estava tudo bem, mas eu não acreditava. Então ele chorou. Acho que ali eu respirei pela primeira vez. Não pensava mais em cirurgia, em estar aberta, em parto, meu filho chorou! Ele foi novamente colocado no meu peito, dessa vez rosado e chorando e parou de chorar quando nos encostamos. Quem o recebia era uma nova pessoa, eu não era mais a mesma de quando ele foi levado. Ali, eu me tornei mãe, quando eu o vi roxo e imóvel, quando finalmente eu entendi que se não estivesse ali, poderia não ser mãe, quando eu abdiquei do meu apoio, para que meu filho tivesse suporte, quando eu agradeci pela cesárea existir, eu me tornei mãe. Eu cortei seu cordão, claro que ele já havia sido cortado, eu só cortei a parte excedente, num gesto bem simbólico. Eu queria ser a pessoa que cortasse nossa ligação simbiótica, a mesma que em diversas etapas, de diversas formas, vai ter de deixá-lo ir para o mundo.
Algumas experiências são impossíveis de você tomar consciência do que está acontecendo com você enquanto as vive. Não havia como eu saber o que acontecia comigo internamente enquanto meu filho saía de mim. Agora, olhando de fora, acredito que eu, que queria ser o mar para que meu filho navegasse através de mim para o mundo, estava na verdade, num barquinho, remando heroicamente rumo ao meu parto, orgulhosa do quanto havia percorrido, quando de repente, os remos desapareceram. Eu estava totalmente à deriva, à mercê do mar tecnológico que me banhava, sem poder fazer nada senão olhar a paisagem e confiar na correnteza, que neste caso, era a equipe mais perfeita que eu podia ter escolhido, que soube esperar o tempo do Andrej serenamente até que não pudéssemos mais e ele pudesse ser nascido, mas ainda respirar sozinho. Minha mãe havia me falado dessa metáfora. O mar foi turbulento, mas no final o barquinho rumou para um canto ensolarado, em águas claras e perto de margens floridas e verdes e, mesmo sem remos, eu pude apreciar a viagem com meu filho nos braços.
Uma vez li um relato de parto de uma estrangeira muito bonito, poético, onde ela traçava uma metáfora de seu trabalho de parto como se fosse uma jornada onde ela tivesse ido pro lugar mais profundo de sua alma, lutado com uma tribo de ursos e retornado com sua filha nos braços. Eu hoje sei o que é isso. Mesmo sem trabalho de parto, o nascimento do meu filho foi uma jornada profunda, cheia de lutas e batalhas, principalmente comigo mesma e eu venci e voltava com meu filho nos braços.
Penso, se esta fosse toda a história, se eu me sentiria diferente, ou se a carga emocional dessa passagem atribulada se propagaria mesmo assim para que eu me sentisse como agora. A verdade é que a história não acaba aí. Andrej nasceu um bebê de 41cm e 2.170g. Era um serzinho minúsculo, com perninhas de sapo, o que o fazia ficar ainda menor. Sua placenta pesava menos de 200g e seu cordão era curto demais. Nem se ele quisesse, ele iria virar. Quisemos colher células-tronco mas o laboratório não conseguiu colher nem a metade da quantidade de células viáveis necessárias. No entanto, meu amor por ele foi imenso logo de cara. Apesar do tamanho e das circunstâncias e de ter precisado ficar na incubadora por uma hora para se aquecer, ele logo depois veio pro quarto e, a pedido da pediatra, as enfermeiras vinham nos auxiliar com amamentação a cada 2h. Ele precisava pegar peso, eu queria amamentar, ele precisava do meu leite. Eu tinha muito leite, o que foi surpreendente. Mas ele teve dificuldade para sugar. Tentamos insistentemente, até que começaram com os testes de glicemia a cada 3h. De 3 em 3h furavam meu filho no pé e isso era uma pressão imensa para mim. Eu dormia mal, pouco, queria trocar fraldas, dormir com ele e estava com dor. Chegava à conclusão de que mães que preferem cesáreas não pretendem cuidar dos seus filhos como eu queria cuidar, pois foi muito difícil pra mim. Eu queria que ele mamasse. Ele sugava no dedo, mas não na mama. As enfermeiras espremiam meu colostro na boca dele, me apertavam e eu desesperada, deixava. Na segunda noite quando eu ainda não havia conseguido que ele mamasse direito, uma enfermeira me disse que ele estava há muito tempo sem se alimentar, que isso era preocupante, que talvez fosse melhor dar só um pouquinho do complemento. Eu disse que não, que ela ligasse pra pediatra que ela iria lhe informar que não era pra dar. Ela me liga do berçário e diz que a médica havia pedido que desse 10ml do complemento só para que ele não ficasse sem comer. Eu cedi. Quando ele voltou, ele vomitou tudo em mim. No dia seguinte a pediatra me falou que ninguém havia ligado para ela. Ali eu comecei a oferecer a mama em horários que as enfermeiras não estavam, quando elas vinham eu dizia que ele já havia mamado. Os testes de glicemia continuavam, e os resultados bons eram minha segurança. Com a orientação da Helo, apelei para o bico de silicone e ele mamou. Melhor que ele mamasse assim do que tomar complemento. A glicemia dele deu um salto. Foi nossa segunda vitória.
Começamos a esperar para termos alta. Mas no segundo dia, veio nossa terceira batalha. A pediatra pediu diversos exames alegando que desconfiava de uma síndrome genética. Ela não conversou comigo, falou rapidamente com meu marido que quis me poupar. Acordei de um descanso com uma enfermeira vindo levar meu filho. Foi uma confusão pois eu não sabia de nada. E foi assim que eu fiquei sabendo que a pediatra achava que meu filho tinha a cabeça num formato estranho, os olhos puxados demais, o quadril estreito associado à restrição de crescimento e à placenta, ele devia ter uma síndrome grave. Ela desconfiava de uma cardiopatia severa, má formação. Ele fez USG de fontanela e abdome, eletrocardiograma e foram dois dias intensos e estressantes de exames e espera de seus resultados. Ao final, tudo normal. Nossa, que alívio. Mais uma vitória. Quando relaxamos, tivemos alta, a pediatra veio nos dar orientações. Entre elas, a de encaminhamento para um geneticista, pois ela ainda suspeitava de algo. E assim estamos desde então, aguardando a consulta, que foi hoje.
Acredito que tivemos mais uma vitória. O geneticista avaliou o Andrej e disse descartar qualquer síndrome que ela pudesse desconfiar. Pediu um cariótipo para confirmar a avaliação clínica e um exame de fundo de olho e cristalino por um pediatra oftalmo por precaução. Disse que isso é tudo que podemos avaliar por enquanto, que deveríamos voltar quando ele tiver entre 3 e 6 meses, quando já vai estar interagindo. Até lá é dar tiro no escuro. Que o fato do tamanho dele ser pequeno pra idade gestacional e da restrição de crescimento podem sugerir algumas doenças, mas que até agora não há motivo para achar nada, que precisamos ver como ele se desenvolve para termos alguma suspeita mais concreta. Esperava ouvir um “seu filho é totalmente normal, pode ir sossegada”, mas acho que isso já bastou. Eu olho para ele e o acho tão perfeito... Ele é pequeno, mas e daí? Eu também sou.
Queria ter uma história de parto linda pra contar. De fato, tiveram momentos sublimes, lindos, como a primeira música que ouvi com ele e que dançamos juntos. Esse amor enorme, mas de certa forma sofrido, pois eu não consegui relaxar desde que ele nasceu. Agora eu acho que não consigo deixar de me preocupar, de temer por ele. É uma sensação muito ruim. Quero curtir esse amor plenamente, mas parece que tem sempre algo espreitando, assombrando. Eu temo tanto, altero momentos de extrema felicidade com outros dias de pura tristeza e preocupação. Creio que o nosso nascimento me marcou muito. E a meu filho, através de mim. Tenho dificuldades de ver o vídeo que meu marido fez com as fotos do parto, me emociono, mas de uma forma que evito. Sinto um calafrio quando olho pro desktop do note dele, onde tem uma foto do Andrej saindo de mim. Tem dias que temo tanto por ele que queria colocá-lo de novo dentro de mim, de viver por ele. Tem horas que olho pra ele e o amor que sinto por ele dói. Não sei explicar. Uns diriam que isso é pós-parto. Eu diria que é um pós-não-parto seguido de muita, muita angústia e preocupação. Mas que fazem de mim uma mãe que quer muito muito muito bem ao seu filho e daria a vida por ele.
Não quis compartilhar isso tudo com toda a família, até porque a parte que não compete à saúde dele e só compete ao meu emocional não será de todo compreendida e, na verdade, o que eu sinto é uma mistura disso tudo junto. E eu recebi tanta gente, todos os dias, tanta visita, que acho que não tive muito tempo pra absorver tudo.
Eu precisava escrever. Sei que é cedo, que eu ainda estou muito mexida, que talvez isso não tenha acabado, que talvez eu ainda não tenha retornado da descida à superfície. Mas uma hora eu retornarei e uma coisa é certa: eu já trago meu filho nos braços.


Agradeço à equipe linda e sintonizada que tive, Helo e Fernanda, vocês foram muito mais que uma equipe, foram amigas, guias, portos seguros. Helo, um dia você ainda vai presenciar um parto meu, parido, sonhado e desejado, obrigada por suas palavras doces e asserivas. Elas fizeram toda a diferença. Fernanda, obrigada por sua alegria de viver, sua segurança e respeito pelas minhas escolhas, mas mesmo assim, por agir na hora que precisou.

Agradeço à minha mãe pelo carinho e dedicação de abdicar de sua vida e suas coisas, seu marido para vir me auxiliar nessa fase da minha vida. Obrigada pela eperiência que você tem me passado tão respeitosamente, me deixando espaço para errar e acertar. De toda sua ajuda, o que mais me tem feito bem é a proximidade de você, suas histórias e seu jeito doce de cuidar que eu também quero ter. Eu amo você.

Agradeço, mais do que tudo, ao meu marido amado, que me apoiou do início ao fim, abrindo espaço para minhas doideiras e irreverências e entendendo minhas razões. você adotou meus ideais como se fossem seus e caminhamos juntos até o fim, como deve ser, como juramos em nossos votos. Cada dia eu te amo mais, por você ser o homem que é, o marido que é, o companheiro que é e o pai que é. Amo, amo, amo...

Eis o vídeo do parto:

segunda-feira, 18 de julho de 2011

Chá de bebê do ANDREJ!!!!



Gente, é chegada a hora de começar a despedida dessa barriga gostosa e grande...

Antes de mais nada, gostaria de dizer que o Chá é sempre uma ajuda nos gastos "menores", mas que somados, são um "gastão". Só que nossa maior intenção nesse dia será mesmo juntar os amigos mais chegados e a família em volta da barriga, principalmente os distantes, pois depois daqui a um pouquinho eu vou me recolher no meu casulinho e me transformar numa MÃE. E isso merece uma despedida, uma comemoração.

A intenção desse post é de dar algumas opções do que ainda não adquirimos para que quem quiser, poder contribuir com a chegada do Andrej. Algumas considerações:

- Nós optamos por uma paternagem mais ecológica e portanto NÃO VAMOS USAR FRALDAS DESCARTÁVEIS. Nossas fraldas serão de pano. Sabemos que dá mais trabalho, mas é um esforço que faremos para o meio-ambiente, não usando as fraldas descartáveis que demoram mais de 500 anos para se decompor (além de ter várias substâncias químicas irritáveis para o bebê). Elas são modernas, práticas, anatômicas e vão na máquina e optamos por modelos que são ajustáveis e crescem com o bebê.

- O quartinho do Andrej será do Pequeno Príncipe em tons de verde, azul e amarelo. Estamos optanto por não comprar coisas bordadas, com aplicações de bichos, bolas, aviões, etc. Estampas serão bem vindas, mas de preferência delicadas e discretas como xadrez, listras, bolas...

- Ganhamos muitos sapatinhos! Acho que o Andrej não vai usar tantos...

A LISTA!

- Conjunto de coador e funil;
- Panelinha esmaltada; (Marise)
- Escova de mamadeira;
- Colher de cozinha;
- Kit de porta algodão, gaze, cotonete;
- Garrafa térmica branquinha;
- Lixeirinha infantil branquinha;
- Bico de silicone para amamentação;
- Conchas para amamentação;
- Protetor de seio (de preferência de tecido);
- Bomba Tira-leite;
- Algodão em bolinhas;
- Lenços umedecidos;
- Cotonetes;
- Alcool 70;
- Limpador de gengiva (são umas luvinhas de pano, que vc esfrega na gengiva do bebe);
- Sabão líquido de coco;
- Balde transparente; (Vó Maria)
- Cueiros;
- Fraldas de boca brancas;
- Toalhas-fralda brancas;
- Toalhas de banho;
- Jogo de lençóis (de malha de algodão);
- Lençõis avulsos com elástico (de malha de algodão); (Ana Lucia)
- Toalha e lençol;  (Marise)
- Cobertor de termocel;
- Capa para bebê-conforto;
- Capa para carrinho (tem umas lindas de caveirinhas na Rock Baby);
- Bebêchila (mochila para coisas do bebê, tipo bolsa de maternidade) modelo Térmica ou Promenade no site Bebêchila; (Igor e Alessandra)
- Sling Santo Sako M ou G (pra mim e pro pai) no site Santo Sako (Paulo)
- Sling Wrap do site Fralda Madrinha
- Fraldas de pano dos seguintes sites:  Fralda Bonita (modelo Plus) (Thais) ; BB Natural (Fuzzi Bunz Tamanho Perfeito); Mamãe NaturezaFralda Madrinha;
- Bodys manga longa;
- Bodys manga curta; (Lucas e Thais)
- Mijão;
- Banho de sol;
- Macacão; (Vó Maria)
- Luvinha;
- Óleo de Calêndula Bebê da Weleda (tem no Mundo Verde)
- Sabonete Líquido Bebê Lavanda da Granado; (Oannes)
- Shampoo Bebê Lavanda da Granado; (Oannes)
- Condicionador Bebê Lavanda da Granado; (Oannes)
- Nebulizador;
- Protetor para quinas;
- Protetor de portas;
- Mordedor;


OBS: Me liguem para que eu informe se alguém já comprou o ítem que você escolher dar.

segunda-feira, 27 de junho de 2011

Nós 6, às 29 semanas de gestação do Andrej/Mindu

Essa é nossa família:



Calmaí, a Mia fugiu!



Espera! Vai disparar, corre! Não deu...



Bonitinha, mas quase que não sai a cabeça do Vido!



Ih, faltou a Lumen, que fugiu no último minuto!



Bem, depois de muito custo, taí: Mia, Kim, Mingo, Ana, Lumen e Andrej, nós 6! Em nossa primeira foto de família.

Andrej é das mulheres da Intensive Care!

Gente, olha que fofo o carinho das meninas do trabalho! Eu fiquei tão feliz com essa surpresinha... Obrigada, gente. com certeza o Andrej já vai chegar conhecendo cada uma de vcs!

segunda-feira, 6 de junho de 2011

Apoiamos as parteiras!


Nós apoiamos a causa, mesmo que à distância!

Marido/pai babão


Não sei quem ama mais esse beijo delicinha, Mindu ou eu...

Barriga coletiva

Eu estou um pouco distante das pessoas, sabe? Tem dias que eu quero ver gente, mas as pessoas também parecem mais distantes. Acho que grávidas não são muito "party animals"... então não devem ser pessoas muito legais de se chamar pra balada, né? Esse sábado fui num show de metal progressivo com meu irmão de uma banda que a gente ama, e foi foda, eu adorei ter visto a banda. Eles são suecos e acho que não vão vir aqui nunca mais... ou por um bom tempo... Foi uma oportunidade e eu peguei e fui, mas no meio eu me senti tão culpada... o som estava MUITO alto (e estava mesmo, não fui eu a grávida fresca, tava distorcido até, ruim mesmo) e eu tive que tirar o casaco pra colocar sobre a barriga pra abafar o som. Ridículo, né? Mas eu curti.

Aí, grávida se sente muito sozinha... Parece que ninguém consegue saber o que está se passando com você. O rebuliço emocional e o de dentro da sua barriga... É um processo tão solitário que não há como compartilhar com ninguém mais. Por mais que você fale e conte. Você (e só você) já tem uma relação com esse serzinho, você sabe quando ele está dando chute porque você tá com a bexiga cheia ou come demais e tem pouco espaço, ele remexe quando você come doce, ele chuta se você coça a barriga, ele faz você mudar de posição à noite se o incomoda... Dá medo, dá ansiedade, dá uma felicidade absurda que não cabe em você quando você pensa que essa coisinha que você já entende vai sair daí de dentro e você vai ver seus traços nele, vai alimentá-lo com seu corpo, vai ensina-lo seus valores... É uma loucura o quão solitário é esse processo... não importa o quanto as pessoas te papariquem ou quanto seu marido sussurre segredos para o filho dele ou esprema o ouvido na sua barriga tentando ouvi-lo, só você está sentindo aquilo.

Mas aí tem umas coisas muito fodas. Domingo fui à Petrópolis e minha família por parte de mãe estava toda lá. Era a aniversário de 80 anos da minha vózinha Vivi. O dia era dela e tava sendo uma delícia, mas uma hora, depois do parabéns, todo mundo colocou uma bola de encher na barriga, ficaram em volta de mim e tiraram uma foto coletiva, todo mundo de barrigão e eu lá no meio. Minha mãe virou pra mim e disse "viu? você não está só". Nem sei se ela sabe o quanto isso foi especial pra mim... Foi o máximo.




quarta-feira, 27 de abril de 2011

Lembranças

Ontem no banho (adoro pensar no banho) fui arrebatada por uma torrente de lembranças da minha infância. 

Comecei lembrando de quando fazia inglês e meu avô vinha toda terça e quinta com sua brazília me pegar para me levar para casa. Ele não tinha essa obrigação, eu nunca pedi que ele o fizesse. Mas toda terça e quinta ele estava lá na esquina me esperando e sempre me levava um chocolate. Quase sempre era um Lancy, mas de vez em quando um Chokito ou um Milk Bar. Era muito gostoso e eu sempre dava um beijão nele e pedia que mandasse um beijão para a vovó. Sorri lembrando disso, um sorriso muito bom.

Depois pensei nas lembranças que tinha de quase toda minha família. Lembrei da minha mãe brincando de menininho comigo, fazendo seu dedo indicador e médio virarem perninhas que saíam andando pelo meu corpinho de criança e fazendo uma vozinha fofa. O "menininho" me colocava  pra dormir, me dizia que a comida tava boa e me pedia pra comer, me contava histórias e me fazia cócegas, eu amava. Até hoje peço a minha mãe pra fazer o "menininho" e viro criança de novo. Então veio uma enxurrada de memórias da minha mãe: ela desenhando um canguru a meu pedido e eu nem sei como ela fez isso, ela me pareceu uma artista nesse dia; ela me ensinando a andar pulando que nem moleca; ela me mostrando como era a dança das mãos do balé; ela cantando "dorme, anjo" pra mim. Nossa, enchi meus olhos d'água e sorri mais.

Então, lembrei do meu pai, que é um cara normalmente muito sério, mas quando penso nele, me lembro de brincar de pique-esconde com uma metralhadora d'água, eu, ele e meu irmão. Ele chegou em casa um dia com 3 trecos desse e propôs a brincadeira. Passamos a tarde toda rindo e molhando a casa inteira, foi uma delícia. Minhas lembranças dele são assim: ele atravessando a rua movimentada comigo e de repente abaixando num sopetão e gritando "olha o avião!" Só eu que já o conhecia, continuava andando, mas quase que todo mundo a nossa volta prontamente se abaixava, era hilário; ele escalando os portais da casa e se escondendo no vão do hall pra dar susto na gente quando a gente passasse; ele ensinando a gente a escalar portais...

Lembrei da minha madrinha, que desde adolescente sempre me reservava um dia para sair comigo, passear, fazer unha, cortar o cabelo, fofocar. Lembrei de antes disso, quando ela escrevia na minha agenda coisas como o dia em que eu fiquei menstruada pela primeira vez ou  meu nome e mais uns tracinhos com apenas uma letra evidente, ocultando o nome do garoto de quem eu gostava, com um enorme coração em volta.

Lembrei de meu irmão pirralho me espremendo no carro enquanto eu reclamava irritada e minha mãe explicava que ele queria ficar perto de mim, ou dele com uma havaiana que devia ter menos de 6cm de tamanho, correndo em círculos atrás de uma barata pra me defender. Lembrei da sensação que eu tinha quando assoprava com força a "melancia" da barriga da minha irmã e ela ria achando a coisa mais divertida do mundo enquanto eu só inflava mais e mais de amor por ela. Me lembro de como era bom poder fazer a mamadeira dela, pois me sentia cuidando dela. Ela foi o bebê que eu mais amei até hoje. Penso se vou amar o Andrej ainda mais e acho que se eu conseguir, meu coração vai explodir.

Lembrei da minha avó vindo passar o dia conosco na casa que moramos em Quintino e de como eu esperava ela na grade até ela chegar ansiosamente. Lembrei da gente pintando ursinhos carinhosos em isopor e cortando com um fio quente que derretia o isopor, aquilo era muito legal!

Lembrei da minha outra vó me ensinando receitas, escrevendo pra mim com todos os detalhes como se faz isso ou aquilo, lembro de namorar seu livro de receitas, do seu bobó, da sua rosca doce.

Lembro da Martha Rocha, da Barbarella, do Xereta, do boné de jacaré, da Galinha Magricela... 

Não tenho mais nada pra falar, só estou prevendo as lembranças que meu filho terá num futuro distante, de mim, do pai, dos avós, dos tios... Meu coração pula!

Ele também. 

quinta-feira, 7 de abril de 2011

Retrospectiva de 18 semanas!

Andrej, olha quanta coisa você já fez!!!!!!

Você foi na festa de fim de ano da empresa da vovó, mas a gente nem sabia que você estava na minha barriga, nessa época você era do tamanho de ua cabecinha de alfinete:

Você contou pra outra vovó que você estava chegando e ganhou um abração:

Você contou pra família, primos e até pra amigos bem sumidos:

Você foi no aniversário do Pedro "da chupeta":

Você tatuou com a mamãe, olha o trabalhinho que nós fizemos:

Você ganhou um montão de presentes de natal:

Você cantou parabéns pra tia Fernanda:

Você fez bagunça com a sua família:

Você viajou pra Bahia quando ainda tinha o tamanho de um amendoim (foi aí que todo mundo começou a chamar você de Minduim):

Você foi a um Festival de Cultura Alternativa, bebê cool esse:

 Você recebeu um monte de carinho de pai (e comeu coisas gostosas do fundo da foto):

Você foi xamegado pelos seus irmãozinhos gatos:

Você foi no aniversário da Selene:

Você nadou no mar de Angra:

Você andou de lancha:

 Você pulou carnaval com vovó, tios e amigos:

 Você foi num baile de dança de salão, no niver da Aline:

Você foi no show do NV:

Você viu a mamãe fazer 30 anos!

Essas são algumas das mulheres da sua vida, faltou tia Gina, vovó Andrea, bisa Eloísa, tia Thalyta...

E esses são alguns dos homens da sua vida, faltou o vovô João, o tio Daniel, tio Pierre...

Enfim... você já está assim, aparecendo pra todo mundo:

Ah, esqueci de dizer: você foi amado em cada segundinho desses aí.
E nos segundinhos entre eles.
Por um monte de gente.

Mamãe Ana.

quarta-feira, 6 de abril de 2011

Carta ao amigo distante

"Amigo,

Tem épocas, como agora, que me dá a louca e eu saio à caça de coisa nova pra ouvir. Ouvido cansa de vez em quando. Agora, com o baby, eu estou à procura da trilha sonora de parto perfeita. Tá sendo um mega desafio. Queria músicas que proporcionassem uma viagem interior, quase que espiritual. Acho que to me preparando pra um rito de passagem DAQUELES. Acho que já te falei, mas vou ter o bebê em casa, da forma mais natural possível.

Bem, e quanto à estados alterados de consciência, você se assustaria como a maternidade pode ser alucinógena. Eu nunca curti muito beber e não tomo um drinquinho sequer desde resolvi engravidar.  Mas é uma viagem doida por si só poder perceber as mudanças que estão acontecendo na minha vida, no meu corpo, na minha familia, no meu marido. Sinto como se tivesse óculos com visão extra-cotidiano permanentes. Minha parteira (que na verdade é enfermeira obstétrica) tem uma proposta que se encaixa bem com o que eu to vivendo. Segundo ela, nem todas as mulheres se permitem viver o parto como ele é, ficam presas no mundo racional, ao medo incutido nelas pela cultura insalubre de parto que a gente tem, onde dar à luz é atribuição médica e nao delas (das mulheres). Aquelas que embarcam na viagem de parir vão para o que elas chamam de "partolândia", um estado alterado de consciência em que claramente a mulher se despe desses conceitos "civilizados" da sociedade e literalmente vira bicho, vive sua plena capacidade de ser mulher, gestar, criar, gerar, parir, defender a si e sua cria. É bem bonito. E eu a procurei por isso, porque queria parir sozinha, queria eu mesma fazer meu parto, queria estar no meu ambiente, no meu ninho e fazer o que eu tivesse vontade.

Se você olhar com os olhos certos, tudo é uma viagem.

Bem, no mais, eu não sei se já te contei, mas o bebê se chama Andrej, é um menino! Ele já tá me dando uma barriguinha bem de grávida mesmo, as pessoas já se referem à mim na rua como grávida (dão lugar, ajudam), é muito engraçado. De vez em quando me vem uma vontade de olhar sério e dizer "obrigado, senhor, mas eu não estou grávida", só pra ver a cara de pamonha das pessoas. Acho tb que eu já estou começando a parecer um pinguim quando ando. O Andrej já mexe, mas só eu sinto, não dá pra sentir por fora, tenho peninha do pai que tá doido pra sentir também. Toda noite ele fica cochichando com a minha barriga esperando alguma coisa, acho que mais dia menos dia ele vai sentir. E vai ser tão bom poder compartilhar isso com ele. Por enquanto, quando mexe, eu sinto que é uma coisa só entre nós dois (eu e Andrej) e ao mesmo tempo que sinto que é um privilégio, tb sinto solidão. Uma coisa acontecendo só dentro de mim. Eu fico viajando nele nadando lá dentro da minha barriga, fico tentando descobrir em que posição ele tá. Converso muito com ele, o dia todo fico narrando meu dia pra ele, zoando as pessoas em segredo pra divertir ele. Na verdade acho que só quem ri sou eu quando vejo como sou boba, mas na minha cabeça sinto ele pensando que a mãe dele é engraçada e acho que ele deve estar feliz. Aí eu fico feliz também.

Bem, isso é só um pouco do que eu tenho vivido, deu pra sentir que tá sendo realmente uma viagem, acho que a melhor de todas.

E pode escrever qualto quiser, viu, afinal, mesmo sem cerveja, olha o quanto eu escrevi!

Ana"



Escrever cartas às vezes é catártico. Devia fazer isso mais vezes.

segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

Encontro Ishtar 23/01/11

Hoje foi dia de encontro do Grupo de Gestantes Pró Parto Humanizado Ishtar. O segundo do qual participo. Parece que foi ainda melhor que o primeiro. O tema foi o atendimento ao parto e a sempre linda Ingrid gravidona e falante orquestrou para que as mamães dessem seus "breves" relatos de parto focando no atendimento, divididas pelos médicos pelos quais foram atendidas. Claro que as informações foram muitas e por isso foi normal que rolasse um atrasinho, mas... nossa! Quanta informação útil! Eu, por exemplo, acabei perguntando uma dúvida que eu tinha em relação ao parto com parteiras e se era possível de rolar algum conflito de interesse entre ela e o médico e aprendi que quando se opta pela parteira, ela é quem faz seu pré-natal e o médico apenas acompanha com algumas consultas; e geralemente esse médico já deve trabalhar com a parteira. É uma equipe na verdade. No caso de uma intercorrência durante o trabalho de parto, a parteira aciona esse médico. Interessante, minhas opções ainda estão abertas. Mas o mais legal é que dos primeiros andares da minha gestação, estar buscando essas informações já agora é um alívio. Saber que tenho tanto tempo para fazer essas escolhas e me informar, me preparar. Penso nas mamães que sequer sabem que existe parto dito humanizado e no alto de suas trinta e poucas semanas são atropeladas pela realidade de ter que procurar "alguém mais humanizado" para fugir de uma estranha indicação de cesária.
Também conheci a gracinha da Gisele Muniz, que foi a primeira pessoa com quem fiz contato em minha busca por informações sobre parto humanizado e o trabalho das doulas no RJ, mesmo antes de saber que estava grávida. Ela foi um docinho, disse que se eu quisesse, ela iria lá em casa e me instruiria em minhas dúvidas mesmo ainda sendo uma tentante. Preferi esperar. Bem, a hora chegou e eu já me inscrevi em um curso organizado por ela. gostei muito de tê-la encontrado lá. No primeiro encontro eu fiquei mais quietinha, afinal, eu sou a grávida do girino da história. Tenho mesmo é que ficar quietinha. É que nem cabo dar pitaco em reunião de capitão. Eu e minha barriga de 8 semanas tagarelando no meio de várias barrigudas e paridas com louvor... imagine. Mas dessa vez eu já fiquei abusadinha e fiz pergunta, me meti, falei da minha consulta. Sou muito abusada mesmo. Enfim, a Gisele escreve um blog que eu recomendo nos links até, o Mar de Mães. Se você ler, vai ver porque adorei o contato com ela, pois o jeitinho dela escrever já mostra como ela encara o trabalho que faz.
No final do encontro, a Vitória Pamplona fez uma demonstração visual de como é o trabalho de parto, o quie acontece com o bebe no canal de parto, vagina e como se comporta o colo do útero e o que é o rebordo. Eu fui voluntária para demonstrar e precisava de mais uma pessoa, e o Derick (meu marido) se ofereceu. Eu não esperava por isso. Amei, porque mais uma vez eu vi que ele comprou essa luta comigo mesmo. Pra quem um dia já achou meio inseguro e estranho essa coisa de parto normal, hoje em dia se oferecer para demonstrar como é um trabalho de parto e defender o parto em casa com argumentos plausíveis e seguros é um longo caminho. Falou a orgulhosa do maridão! Amo muito esse Vido.

sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

A natureza sempre fala

Tenho experimentado uma sensação curiosa de que a natureza sempre fala mais alto na mulher, principalmente num momento de praparação para uma passagem importante da vida que é ser mãe. A gente vive num país onde a cultura nos ensina que a cesária é melhor, mais segura, menos dolorosa, e com menos risco. Não é verdade, quem se informa e vai contra a correnteza sabe que a cesárea precisa ter uma indicação, que é uma cirurgia de grande porte que oferece riscos sim e deve ser uma alternativa muito bem vinda no caso de uma complicação no decorrer do parto, mas a maioria continua acreditando no que os médicos falam, mesmo quando estes vão contra a orientação da Organização Mundial de Saúde e à favor de suas agendas e bolsos. Não é culpa delas. E, mesmo tendo minhas convicções, também não é meu papel ficar "catequisando" ninguém. Mas quando me perguntam como pretendo ter meu/minha filh@, respondo com toda naturalidade: de parto natural e em casa. Deve ter algo no modo sereno e feliz com que transmito essa minha escolha pois o que causa é realmente curioso. De pronto, todos se assustam, e fazem mil perguntas. Normal. Tem aqueles que nem perguntam, vão logo me falando da besteira que eu estou fazendo e me botando terror. Mantenho a calma e em alguns casos, explico que não estou maluca, que minha opção é segura, que estou próxima à Perinatal, que estou acompanhada de um ótimo profissional que apóia minhas decisões e desminto alguns mitos que me alegam, em outros casos, apenas deixo falarem e depois sair pelo outro ouvido. Entretanto, me surpreendo quando essa conversa é com outra gestante que já está com sua cesárea marcadinha. De forma alguma eu falo que ela não deveria fazer cesárea e o quanto uma cesárea eletiva pode ser ruim, nunca! O que eu mais quero é contribuir para a tranquilidade da futura mamãe com suas escolhas, para que isso reflita em seu parto. Mas se elas me perguntam sobre como pretendo ter meu bebê e eu respondo, geralmente elas fazem mil perguntas interessadas, acham o máximo e mesmo dizendo que eu sou "muito corajosa" e que "elas jamais aguentariam", no final sempre me pedem telefone de médico, do grupo de gestantes que frequento, sites que indico e eu tenho a impressão de que sempre saem com vontade de viver o seu parto mais próximo de como a natureza lhes deu ferramentas para fazê-lo. Curto essa sensação. Me faz ter a impressão de que cada mulher ainda reserva dentro de si a sensação de sacralidade dessa condição de criadora que nos equipara à Deusa. Lindas.

quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

Parindo poesia

Tem dias que eu acho que tenho muito assunto para falar. Tem dias que nada me sai. Sempre fui de escrever muito, poesias, letras de música, contos, pensamentos... Escrever é como gerar um filho: você se esforça, coloca todo seu coração, depois pensa em como aquela coisa tão linda saiu de você. No final, ele não é mais seu, é do mundo.

Mas tem muito tempo que não produzo um texto do qual me orgulhe. Creio eu que sempre vi a escrita como uma forma de catarse. E a vida anda muito boa para precisar disso com tanta frequência. Então parei de escrever. Ando muito feliz. Entretanto tenho pensado no que sairia caso me conectasse com essa felicidade plena que venho sentindo e colocado em palavras.

É muito amor que existe em mim hoje. Aos 27 anos eu encontrei um amor que eu não sabia existir e o tempo foi passando e um dia esse amor não coube em dois e virou 3, em semente, dentro de mim. Agora estou grávida de sete semanas. E embora tudo que eu sinta até agora sejam só enjôos, muita coisa em mim já mudou. E a principal delas foi a consciência do meu caráter. Em reflexão, me pergunto se serei uma boa mãe, se saberei ter rotina, dar ao meu filho uma educação digna, ajudarei a desenvolver seu caráter íntegro. E minha sensação ao final de algumas lutas contra meus receios é de que sim, eu serei. Parece que a maternidade me deu confiança. E eu espero que isso se prolongue pela minha vida toda.